O vereador sem pelouro do Partido Socialista na Câmara Municipal de Águeda, José Mota, defendeu que “falta mais pluralismo” na política local e considerou que a oposição enfrenta dificuldades acrescidas por estar, atualmente, “dividida entre o movimento Juntos e o Partido Socialista” no executivo. As posições foram assumidas no programa “O CENTRO POLÍTICO”, da TVC, onde o autarca sublinhou que “a discussão é sempre positiva” e que “outras vozes” no debate municipal seriam benéficas para a governação do concelho.
Na entrevista, José Mota abordou a ligação Águeda–Aveiro como um tema “económico-social” estruturante, admitindo que faz sentido “há muitos anos” e que poderá melhorar a imagem do concelho. O vereador apontou que, do ponto de vista empresarial, a acessibilidade tem impacto direto na perceção externa e na atratividade do território, defendendo que uma ligação mais rápida reduzirá a ideia de afastamento do litoral. “Quarenta quilómetros é nada”, referiu, acrescentando que a aproximação a nós rodoviários e a proximidade a infraestruturas nacionais são elementos que podem funcionar como facilitadores para o investimento.
Ainda assim, deixou um alerta: sem planeamento, Águeda poderá tornar-se um “dormitório” de Aveiro, dado o crescimento do município aveirense e a pressão no mercado habitacional. José Mota admitiu que essa possibilidade é elevada, mas sublinhou que o concelho tem vantagens culturais que podem contrariar essa tendência, se houver estratégia. Para isso, considera essencial preparar o território para a eventual chegada de novos residentes, nomeadamente ao nível da habitação, mobilidade e ordenamento.
No capítulo da habitação, o vereador defendeu que a resposta não pode ficar entregue apenas à iniciativa privada, sustentando que uma política eficaz assenta em três vetores: habitação social, soluções para a classe média e investimento privado. José Mota afirmou que há dificuldades no licenciamento e que é necessário “agilizar” processos para estimular a construção, sublinhando que “tudo o que seja para criar habitação é bom”. Ao mesmo tempo, advertiu que esperar que o privado construa habitação acessível “não vai acontecer”, justificando que o investidor procura maximizar o retorno do projeto.

Sobre o Mercado Municipal, José Mota considerou que a intervenção era necessária e que o espaço deve ser “multifuncional”, mas criticou o custo global da obra, afirmando que o valor por metro quadrado é “exagerado”. Disse ainda que não visitou o novo mercado, referindo não ter sido convidado para o fazer, embora conheça o projeto.
A proximidade do mercado a grandes superfícies comerciais foi também abordada, com o vereador a considerar que o ordenamento deveria ter prevenido uma “alta densidade de comércio” junto de um equipamento pensado para pequeno comércio. Reconhecendo o direito de venda dos proprietários privados, lamentou, no entanto, o impacto que a coexistência com grandes superfícies poderá ter na dinâmica do mercado tradicional.
Os grandes eventos do concelho foram outro ponto central. Sobre o AgitÁgueda, José Mota reconheceu o sucesso na revitalização da baixa, mas insistiu que o financiamento deve ser repensado para “não onerar tanto o município”. Manifestou preocupação com a segurança no local atual, defendendo que o modelo tem de ser revisto, com maior dispersão de estruturas e melhor gestão de fluxos, para evitar concentrações excessivas em zonas sensíveis. Quanto à bilhética, disse que foi uma medida pensada para “controlar o número de pessoas” num contexto específico, não como solução permanente.
Já sobre o Águeda Natal, considerou que os números atingidos exigem um planeamento mais estruturado e criticou o fraco aproveitamento da presença de visitantes para distribuir riqueza pelo resto do concelho. Defendeu a criação de instrumentos que disseminem informação e levem as pessoas a explorar outras freguesias, exemplificando com modelos internacionais que recorrem a aplicações e programação distribuída pela cidade, reduzindo concentrações e criando múltiplos polos de atração.
Na área das piscinas municipais, José Mota afirmou que a localização atual agrava patologias do edifício, referindo pouca exposição solar e dificuldades de ventilação, a que se soma o desgaste acelerado por vapor, humidade e químicos. Na sua perspetiva, “por mais dinheiro” que se invista, o equipamento continuará a degradar-se, defendendo a necessidade de um novo espaço noutro local — decisão que, sublinhou, deve ser integrada numa planificação global da cidade, incluindo mobilidade e novas zonas habitacionais.
A mobilidade urbana mereceu críticas diretas. O vereador assumiu ser defensor de espaços centrais orientados para pessoas e não para automóveis, defendendo que o centro da cidade deve privilegiar o usufruto público, a vivência e a circulação pedonal. Porém, admitiu que esse caminho exige alternativas claras: onde estacionar e como garantir ligações fáceis entre zonas, algo que considera faltar atualmente por ausência de um plano de mobilidade estruturado.
No plano político, José Mota explicou que pretende maior transparência e comunicação pública sobre projetos e investimentos, referindo que não identifica, nos últimos anos, uma visão estratégica de médio e longo prazo para Águeda. Ainda assim, afirmou estar disponível para colaborar com o presidente Jorge Almeida, garantindo que já lhe transmitiu pessoalmente estar “cá para ajudar a fazer acontecer as coisas”, mantendo a crítica como instrumento positivo de melhoria.
Sobre o Partido Socialista em Águeda, considerou que o partido tem vindo “a dar um pontapé” na recuperação após um período de perda de “massa crítica” e divisões internas, e enquadrou também a influência do contexto nacional na perceção pública. Nas presidenciais, afirmou esperar “que a democracia se mantenha”, evitando um prognóstico direto entre António José Seguro e André Ventura. Questionado sobre ambições futuras, disse estar disponível para “assumir compromissos e batalhas” se tiver condições, mas reiterou que o seu foco é “um projeto de Águeda”, descrevendo-se como independente, apesar de concorrer pelo PS.

No final, deixou um apelo à participação cívica e política, defendendo que os cidadãos não devem ter vergonha de se envolverem na gestão pública e que a crítica deve ser acompanhada de contributo para a mudança, especialmente junto das gerações mais novas. Na entrevista, abordou ainda o reconhecimento de Águeda como European Green Leaf 2026, classificando-o como culminar de políticas e investimentos de vários mandatos, e defendeu a entrega do futuro parque junto ao cais “às pessoas com urgência”, referindo tratar-se de um espaço com décadas de debate e necessidade de concretização.
