O cenário é impactante. Troncos carbonizados, cheiro a floresta queimada, uma atmosfera marcada pela destruição e pelo silêncio que fica depois das chamas passarem. É esta a experiência que a exposição imersiva “A Última Floresta” pretende proporcionar a quem passa pelo Largo Dr. António Breda, em Águeda, numa iniciativa que procura despertar consciências para a prevenção dos incêndios florestais e para a responsabilidade individual na proteção da floresta.
Inaugurada na passada sexta-feira, a instalação artística transforma um dos espaços centrais da cidade numa representação simbólica dos efeitos devastadores dos incêndios que, todos os anos, continuam a marcar profundamente o território nacional.
Durante a cerimónia de abertura, o presidente da Câmara Municipal de Águeda, Jorge Almeida, deixou um apelo claro à população, defendendo que a exposição deve ser encarada como um momento de reflexão coletiva sobre um problema que continua a ter origem, na maioria dos casos, na ação humana.
“O que vemos aqui é muito mais do que uma exposição. É um confronto direto com uma realidade que continua a repetir-se todos os anos. Ninguém gosta de ver árvores queimadas, ninguém gosta de ver uma floresta destruída. E é precisamente esse desconforto que queremos provocar, para que as pessoas reflitam sobre as suas atitudes”, afirmou.
O autarca recordou que a esmagadora maioria dos incêndios florestais resulta de comportamentos humanos, frequentemente associados à negligência e à falta de cuidado.
“Uma ponta de cigarro lançada para o local errado, uma queimada mal executada, uma pequena fogueira que não é devidamente apagada. Gestos aparentemente simples podem ter consequências devastadoras. Grande parte destes cenários não são inevitáveis. Estão diretamente relacionados com decisões humanas e, por isso, também está nas nossas mãos evitá-los”, sublinhou.
Memória de uma tragédia que marcou Águeda
A inauguração da exposição surge num ano particularmente simbólico para o concelho. Em junho assinalam-se 40 anos dos trágicos incêndios de Castanheira de Vouga, uma das páginas mais dolorosas da história recente de Águeda.
Jorge Almeida destacou que a memória desse acontecimento continua bem presente na comunidade e que a exposição assume igualmente uma dimensão evocativa.
“Águeda está profundamente marcada por essa tragédia. Todos os anos prestamos homenagem aos bombeiros e aos civis que perderam a vida e este ano voltaremos a fazê-lo. São momentos carregados de significado e que nos recordam aquilo que nunca pode voltar a acontecer”, afirmou.
O presidente da Câmara revelou ainda que as cerimónias evocativas contarão com a presença do Ministro da Administração Interna, reforçando a importância nacional da homenagem.
Para o autarca, recordar o passado é essencial para construir uma cultura de prevenção.
“Não podemos aceitar os incêndios como se fossem mais uma estação do ano. Não podemos olhar para a chegada do verão e assumir que os incêndios vão acontecer inevitavelmente. Temos de combater essa ideia e perceber que existe uma enorme margem de prevenção”, defendeu.
Uma experiência para sentir os efeitos do fogo
Também Edson Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Águeda, destacou o carácter inovador da iniciativa, explicando que a exposição foi concebida para proporcionar uma experiência sensorial capaz de aproximar os visitantes da realidade vivida nas áreas afetadas pelos incêndios.
“Quem entra nesta instalação sente o calor, os cheiros e a atmosfera de uma floresta acabada de arder. Queremos que as pessoas tenham uma perceção mais real daquilo que significa perder uma floresta, perder biodiversidade e destruir um património natural que demora décadas a recuperar”, explicou.
Segundo o responsável, a escolha do local não foi casual. A proximidade a uma escola pretende potenciar o contacto dos mais jovens com esta realidade.
“A educação é uma das ferramentas mais importantes para prevenir os incêndios. Queremos que as escolas venham visitar este espaço, que os alunos reflitam sobre aquilo que estão a ver e compreendam que a proteção da floresta depende de todos nós”, referiu.
A arte ao serviço da mudança de comportamentos
Edson Santos destacou ainda que esta iniciativa se enquadra na estratégia que o Município de Águeda tem vindo a desenvolver através da arte urbana e das instalações artísticas espalhadas pela cidade.
“A arte tem uma enorme capacidade de comunicar mensagens e provocar reflexão. Em Águeda temos utilizado a arte para transformar espaços e também para sensibilizar as pessoas para diferentes temas. Foi assim com várias instalações ao longo dos anos e acreditamos que esta exposição terá igualmente um impacto muito significativo”, afirmou.
O vice-presidente recordou exemplos de projetos que ajudaram a reforçar a identidade da cidade e considera que “A Última Floresta” poderá deixar uma marca semelhante, mas associada à consciencialização ambiental.
“A esperança é precisamente que as pessoas nunca tenham de voltar a encontrar um cenário como este na realidade. Queremos que encontrem florestas vivas, biodiversidade preservada e um ambiente saudável para as futuras gerações”, acrescentou.
Dezenas de árvores queimadas dão vida à instalação
A exposição reúne dezenas de árvores reais destruídas por incêndios em várias regiões do país, entre eucaliptos, pinheiros, castanheiros e carvalhos, que foram transportadas para Águeda e integradas numa instalação artística concebida para reproduzir o ambiente de uma floresta devastada.
Ao longo do percurso, os visitantes encontram diversos elementos que ajudam a recriar a experiência, desde efeitos de calor e vento até componentes olfativas que simulam o cheiro característico deixado pelos incêndios.
A experiência é complementada por conteúdos digitais acessíveis através de QR Codes, permitindo conhecer a história das árvores e compreender melhor os impactos ambientais, económicos e sociais dos incêndios florestais.
No final do percurso surge o chamado “Carvalho da Esperança”, símbolo da regeneração da natureza e da capacidade de recuperação dos ecossistemas quando existe proteção e intervenção adequada.
Um problema que continua atual
Portugal continua a ser um dos países europeus mais afetados pelos incêndios florestais, registando anualmente milhares de ocorrências que provocam perdas humanas, destruição de património natural, danos económicos e impactos ambientais significativos.
A exposição pretende precisamente aproximar esta realidade do público, mostrando de forma direta aquilo que muitas vezes apenas é visto através das imagens televisivas dos grandes incêndios.
Ao trazer para o centro da cidade os vestígios reais da destruição provocada pelo fogo, “A Última Floresta” procura transformar a sensibilização ambiental numa experiência emocional e inesquecível, reforçando a mensagem de que a prevenção continua a ser a arma mais eficaz no combate aos incêndios florestais.
A instalação estará patente ao público até ao próximo dia 14 de junho, com entrada livre, integrando igualmente as comemorações dos 40 anos da tragédia de Castanheira de Vouga e diversas ações de sensibilização dirigidas à comunidade escolar e à população em geral.





