Empresa portuguesa desenvolveu tecnologia própria, criou uma nova geração de componentes de elevada precisão e posiciona-se entre os poucos fabricantes europeus capazes de produzir internamente praticamente toda uma roda de bicicleta. O investimento reforça a autonomia industrial da Europa e consolida a Rodi como uma referência mundial no setor.
Durante décadas, um dos maiores paradoxos da indústria europeia da bicicleta foi a sua forte dependência da Ásia para produzir alguns dos componentes tecnologicamente mais importantes das rodas. Mesmo fabricantes de referência viam-se obrigados a importar peças essenciais, ficando vulneráveis às oscilações do mercado internacional, aos custos logísticos e às ruturas nas cadeias de abastecimento.
Foi precisamente essa realidade que a pandemia da Covid-19 expôs de forma dramática. A escassez de componentes levou muitas empresas europeias a suspender encomendas, atrasar entregas e perder competitividade. A Rodi Industries decidiu transformar essa fragilidade numa oportunidade.
Com um investimento de cerca de 18 milhões de euros, apoiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), a empresa portuguesa apresentou um dos mais ambiciosos projetos de inovação industrial alguma vez desenvolvidos no setor nacional das duas rodas, passando a fabricar internamente componentes que até agora eram maioritariamente adquiridos a fornecedores asiáticos.
O projeto representa muito mais do que a ampliação de uma unidade industrial. É uma mudança estrutural na forma como a empresa produz, investiga, desenvolve tecnologia e compete nos mercados internacionais, colocando Aveiro no centro da nova estratégia europeia para uma mobilidade mais sustentável e tecnologicamente autónoma.
Uma história de mais de sete décadas construída sobre a capacidade de adaptação
Fundada em 1952, a Rodi nasceu ligada ao fabrico de componentes para motociclos, numa época em que o distrito de Aveiro concentrava uma das mais importantes indústrias portuguesas de ciclomotores.
Ao longo dos anos, a empresa reinventou-se sucessivamente.
Primeiro apostou na produção de aros para bicicletas, depois expandiu-se para o setor dos lava-loiças em aço inoxidável e, mais recentemente, consolidou uma forte presença internacional em ambos os segmentos.
Hoje, a Rodi exporta praticamente toda a produção do setor do ciclismo e está presente em cerca de 80 países, empregando aproximadamente 350 colaboradores.
Apesar da quebra superior a 50% registada pelo mercado europeu das bicicletas desde o segundo semestre de 2023, consequência do reajustamento pós-pandemia, a administração optou por seguir um caminho contrário ao da retração.
Em vez de reduzir investimento, decidiu acelerar a inovação.
“O mercado mudou, mas acreditamos profundamente no futuro da mobilidade sustentável e da bicicleta como meio de transporte”, afirmou o CEO da empresa, Armando Levi, durante a apresentação do projeto.
Essa visão está igualmente associada ao objetivo estratégico definido pela administração: recuperar, até 2030, níveis de faturação próximos dos 100 milhões de euros, reforçando simultaneamente a presença nos segmentos premium do mercado mundial.
O problema que nasceu na Ásia acabou resolvido em Aveiro
Durante a pandemia, a Rodi viveu uma situação que acabaria por mudar a sua estratégia industrial.
Embora fabricasse internamente os aros e os raios das rodas, continuava dependente da importação dos cubos — componente central responsável pela transmissão da potência da pedalada para a roda.
Sem cubos, simplesmente não havia rodas.
As dificuldades de abastecimento provenientes da Ásia provocaram atrasos e limitações produtivas que demonstraram a vulnerabilidade da indústria europeia.
Foi então que surgiu uma decisão considerada ousada.
A empresa decidiu desenvolver de raiz toda uma nova família de cubos de bicicleta, concebidos, projetados e produzidos em Portugal.
Mais do que fabricar uma nova peça, tratava-se de dominar tecnologia que praticamente tinha desaparecido da Europa.
Uma das maiores apostas tecnológicas da indústria portuguesa
O desenvolvimento dos novos cubos obrigou a criar uma verdadeira plataforma tecnológica.
Sob coordenação da equipa liderada pelo engenheiro César Cardoso, a empresa estruturou um departamento de Investigação & Desenvolvimento dedicado exclusivamente ao projeto, envolvendo cerca de uma dúzia de especialistas.
Foram desenvolvidos novos processos industriais, novas metodologias de fabrico e sistemas automáticos capazes de garantir tolerâncias extremamente reduzidas, medidas ao nível da micra.
Ao contrário do modelo produtivo dominante na Ásia, baseado em componentes previamente forjados, a Rodi desenvolveu uma abordagem distinta, recorrendo a perfis extrudidos que asseguram maior estabilidade dimensional, repetibilidade e controlo de qualidade.
A empresa passou assim a fabricar internamente praticamente todos os pequenos componentes que integram um cubo, recorrendo apenas a fornecedores externos para rolamentos e vedantes, elementos standard existentes no mercado internacional.
Tecnologia portuguesa com assinatura da Universidade de Aveiro
O projeto foi desenvolvido em estreita colaboração com a Universidade de Aveiro.
Investigadores dos departamentos de Engenharia Mecânica e Engenharia de Materiais participaram na criação de um novo sistema de transmissão de potência baseado em tecnologia “Ratchet”, considerado o verdadeiro coração mecânico do cubo.
Desta colaboração resultou igualmente uma patente atualmente em processo de registo, que poderá abrir novas oportunidades comerciais para a empresa.
Outra das inovações passou pelo desenvolvimento, em conjunto com a Hydro, de uma nova liga de alumínio com características mecânicas superiores, especialmente concebida para responder às exigências das rodas de elevado desempenho.
Além do desenvolvimento laboratorial, o projeto envolveu milhares de horas de simulação computacional, ensaios estruturais, testes de fadiga e validação internacional.
Da roda convencional à roda premium
O investimento não incidiu apenas sobre os cubos.
A empresa desenvolveu igualmente duas novas famílias de rodas de elevada performance, destinadas aos mercados da competição, do ciclismo de estrada, montanha, gravel e bicicletas elétricas.
A nova gama divide-se em duas plataformas distintas.
A primeira privilegia baixo peso, rapidez de resposta e elevado desempenho competitivo.
A segunda foi concebida para aplicações mais exigentes, privilegiando durabilidade, robustez e maior vida útil, respondendo às necessidades das bicicletas elétricas, bicicletas de carga e utilizações intensivas.
Todo o desenvolvimento teve como objetivo aumentar simultaneamente a rigidez estrutural e reduzir o peso dos componentes, duas características fundamentais para melhorar a eficiência energética da bicicleta.
18 milhões para construir a fábrica do futuro
O investimento financiado pelo PRR transformou profundamente a unidade industrial da empresa.
Foram construídos cerca de 5.500 metros quadrados de novas instalações produtivas e logísticas, concebidas desde o primeiro dia para acomodar futuras expansões.
A fábrica recebeu 48 novos equipamentos industriais, muitos deles altamente automatizados e preparados para integração com sistemas avançados de produção digital.
Entre os investimentos mais relevantes destacam-se ainda:
- uma nova unidade de anodização de última geração, avaliada em cerca de 2,5 milhões de euros;
- uma estação de tratamento de águas residuais industriais dimensionada para responder ao crescimento futuro da produção;
- laboratórios próprios de ensaio e controlo de qualidade;
- novas linhas robotizadas de maquinagem de elevada precisão;
- equipamentos avançados de testes de fadiga e validação estrutural.
Segundo os responsáveis, toda a configuração industrial foi desenhada para permitir duplicar a capacidade produtiva sem necessidade de alterações profundas na infraestrutura.
Maior fabricante europeu de aros prepara nova fase de crescimento
A Rodi produz atualmente mais de três milhões de aros por ano, sendo considerada o maior fabricante europeu neste segmento.
A empresa fabrica igualmente cerca de 400 mil rodas completas, dispondo, contudo, de capacidade instalada para praticamente duplicar essa produção.
O objetivo passa agora por integrar progressivamente os novos cubos nas rodas produzidas pela marca, reduzindo importações e aumentando significativamente o valor acrescentado gerado em Portugal.
A médio prazo, a empresa pretende também comercializar os cubos como produto autónomo, fornecendo fabricantes internacionais.
Exportações continuam a ser motor do crescimento
O perfil exportador mantém-se como uma das grandes forças da empresa.
No setor do ciclismo, praticamente toda a produção destina-se aos mercados internacionais.
Alemanha, Países Baixos, Bélgica, França, Espanha e os países nórdicos continuam entre os principais destinos das rodas e componentes produzidos em Aveiro.
Já na área dos lava-loiças, a presença da empresa estende-se praticamente a todos os continentes.
PRR reconhece projeto como exemplo de transformação industrial
Durante a sessão, o Presidente da Estrutura de Missão Recuperar Portugal, Fernando Alfaiate, classificou o investimento como um exemplo do impacto que as Agendas Mobilizadoras pretendem gerar na economia nacional.
Recordou que a Agenda Mobilizadora para o Setor das Duas Rodas representa um investimento global superior a 214 milhões de euros, apoiado pelo PRR em cerca de 114 milhões de euros, envolvendo dezenas de empresas, universidades e centros tecnológicos.
Segundo o responsável, o maior legado destes projetos não reside apenas nas novas fábricas ou nos equipamentos adquiridos, mas sobretudo na criação de conhecimento, capacidade de investigação e desenvolvimento tecnológico que continuará a produzir resultados muito para além do término do financiamento europeu.
Um exemplo da nova indústria portuguesa
Também o Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, José Ribau Esteves, destacou a Rodi como um exemplo de cooperação entre empresas, universidades e entidades públicas.
Na sua intervenção, defendeu uma maior simplificação administrativa dos mecanismos de apoio ao investimento e sublinhou que projetos como este demonstram como Portugal pode afirmar-se através da inovação, da tecnologia e da produção industrial de elevado valor acrescentado.
No mesmo sentido, o vereador do Desenvolvimento Económico da Câmara Municipal de Aveiro, Pedro Almeida, considerou que este investimento representa uma afirmação de confiança em Aveiro, na indústria nacional e na capacidade do território para competir internacionalmente.
Muito mais do que uma nova fábrica
O investimento agora concluído não representa apenas um aumento da capacidade produtiva da Rodi.
Representa uma alteração profunda do posicionamento estratégico da empresa.
Ao dominar internamente praticamente todo o processo produtivo de uma roda de bicicleta, desenvolver tecnologia própria, criar conhecimento em parceria com universidades portuguesas e reduzir a dependência de fornecedores asiáticos, a empresa reforça a autonomia industrial nacional e coloca Portugal numa posição de maior relevância numa indústria global em plena transformação.
Num momento em que a Europa procura recuperar capacidade produtiva em setores estratégicos, a Rodi demonstra que é possível competir através da inovação, da engenharia e da especialização tecnológica.
Mais do que fabricar rodas, a empresa portuguesa está a contribuir para redesenhar o futuro da indústria europeia das duas rodas.










