A Sabgal Foods, empresa que há apenas dois anos colocou o seu nome na equipa profissional de ciclismo sediada em Águeda e celebrou a conquista da Volta a Portugal, foi declarada insolvente e viu o seu património colocado em leilão numa operação avaliada em perto de 17 milhões de euros. A história tem uma ligação direta a Águeda: a empresa patrocinou a estrutura profissional do Clube Desportivo Fullracing, o seu presidente do Conselho de Administração, Ernesto Vidal, foi publicamente identificado como empresário de Águeda e a operação de venda agora conhecida abrange ativos localizados em Santa Comba Dão, Águeda e Sintra.
A dimensão do caso contrasta com as expectativas criadas em torno da Sabgal. A empresa desenvolveu uma moderna unidade industrial em Santa Comba Dão através de um projeto que contou com um investimento elegível de cerca de 10 milhões de euros e um incentivo público de aproximadamente sete milhões, ao abrigo do COMPETE 2020.
O projeto pretendia criar uma unidade tecnologicamente avançada na área alimentar, vocacionada para os mercados nacional e internacional e com a perspetiva de criação de dezenas de postos de trabalho.
A empresa acabaria por atingir uma dimensão significativa. Segundo informação entretanto divulgada sobre a insolvência, a Sabgal chegou a empregar 133 trabalhadores e, ainda em 2024, registou uma faturação de 20,6 milhões de euros. No mesmo exercício, contudo, terá apresentado prejuízos superiores a 2,8 milhões de euros.
Entre os credores são referidas entidades como a Autoridade Tributária, a Segurança Social e a Caixa Geral de Depósitos.
A Sabgal acabaria por ser declarada insolvente em abril deste ano.
Mas para Águeda esta não é apenas a história da queda de uma empresa com uma fábrica localizada noutra região do país.
A ligação ao concelho foi particularmente forte através do ciclismo.
Em outubro de 2023, o Centro de Artes de Águeda foi palco da apresentação de um novo capítulo para a equipa profissional do Clube Desportivo Fullracing. A Sabgal assumia o lugar da Glassdrive como principal patrocinador da estrutura sediada em Águeda.
O acordo então anunciado previa uma ligação por três anos, renovável por outros três. Na apresentação chegou mesmo a falar-se de um projeto com um horizonte de seis anos.
Carlos Pereira, responsável pela estrutura, descrevia na altura a parceria como um projeto de longo prazo e antecipava um investimento significativo na equipa e nos atletas.
Do lado da Sabgal, Ernesto Vidal, presidente do Conselho de Administração da empresa e identificado na altura como empresário de Águeda, manifestava igualmente uma forte confiança no projeto. Afirmava que a Sabgal procurava projetos de médio e longo prazo e que a empresa entrava naquela ligação de “corpo e alma”.
A relação entre a Sabgal e Águeda não era, portanto, meramente comercial.
A estrutura profissional do Fullracing está sediada no concelho e representa há vários anos Águeda no pelotão nacional e internacional. A própria escolha da equipa foi publicamente relacionada com a ligação de Ernesto Vidal a Águeda.
A aposta produziu resultados desportivos quase imediatamente.
No verão de 2024, Artem Nych conquistou a Volta a Portugal ao serviço da Sabgal/Anicolor. A equipa sediada em Águeda alcançava assim uma das maiores vitórias da sua história precisamente na primeira temporada em que a Sabgal surgia como principal patrocinador.
Foi o ponto mais alto de uma parceria que, meses antes, tinha sido apresentada como um projeto para vários anos.
Mas a história mudaria rapidamente.
Apesar de o acordo anunciado prever três anos e possibilidade de renovação por outros três, a Sabgal deixou de dar nome à formação depois de apenas uma temporada.
Em 2025, a estrutura de Águeda passou a competir sob a designação Anicolor/Tien21. Atualmente, em 2026, compete como Anicolor/Campicarn, mantendo-se Artem Nych integrado na equipa.
Enquanto o projeto desportivo prosseguiu sem a Sabgal, a situação da empresa deteriorou-se até culminar na insolvência.
Agora, o património da empresa chegou ao mercado.
A operação promovida pela LC Premium terminou no passado dia 16 de setembro e envolveu ativos da Sabgal localizados em Santa Comba Dão, Águeda e Sintra.
A informação publicada sobre a operação aponta para um valor próximo dos 16,9 milhões de euros associado ao conjunto colocado em venda.
Entre o património anunciado encontram-se instalações industriais e respetivo logradouro, terreno para construção e numerosos equipamentos, incluindo material destinado à indústria alimentar, gerador, posto de transformação, stacker, racks, células de carga, mobiliário, material informático e ações.
Existe, contudo, uma questão particularmente relevante para Águeda que permanece por esclarecer.
A informação disponível identifica expressamente Águeda como uma das localizações dos ativos abrangidos pela operação, mas não discrimina de forma suficientemente clara quais dos bens colocados em venda correspondem concretamente ao concelho.

É um dado importante, sobretudo tendo em conta a relação pública que a Sabgal e Ernesto Vidal mantiveram com Águeda durante o período de maior projeção da empresa no ciclismo.
A sequência dos acontecimentos é particularmente marcante.
Uma empresa que desenvolveu um projeto industrial associado a cerca de 10 milhões de euros de investimento elegível e a um incentivo de aproximadamente sete milhões de euros, chegou a empregar mais de uma centena de trabalhadores e ainda faturava mais de 20 milhões de euros em 2024 entrou no ciclismo profissional através de uma estrutura de Águeda, anunciou um projeto para vários anos e conquistou a Volta a Portugal logo na primeira temporada como patrocinadora principal.
Pouco depois, desapareceu das camisolas da equipa.
Menos de dois anos após a vitória de Artem Nych na Volta a Portugal, a Sabgal encontra-se insolvente e os seus ativos chegaram a leilão.
A empresa que em 2023 chegava a Águeda apresentando uma parceria desportiva de longo prazo vive, em 2026, uma realidade completamente diferente.
E permanece uma pergunta com particular interesse local: que património da Sabgal está localizado em Águeda e qual o seu valor dentro da operação de venda?
É uma questão que o Notícias de Águeda continuará a procurar esclarecer.
