O Centro de Artes de Águeda é, esta quarta e quinta-feira, 9 e 10 de setembro, o ponto de encontro da comunidade educativa do concelho. Mais de 410 participantes estão inscritos no Encontro Municipal de Educação 2026, uma iniciativa que antecede o arranque do novo ano letivo e coloca em discussão alguns dos maiores desafios da escola atual: da saúde mental à inteligência artificial, passando pelo neurodesenvolvimento, inclusão, inovação pedagógica, felicidade, dislexia e igualdade de oportunidades.
A poucos dias do início oficial de mais um ano letivo, Águeda juntou professores, educadores, dirigentes escolares, técnicos, assistentes operacionais, associações de pais e diferentes parceiros da área da Educação para dois dias de reflexão sobre o presente, mas sobretudo sobre aquilo que deverá ser a escola do futuro.
O Encontro Municipal de Educação 2026, promovido pela Câmara Municipal de Águeda, começou esta quarta-feira, 9 de setembro, no Centro de Artes de Águeda, prolongando-se até amanhã, quinta-feira. Sob o mote “Do conhecimento à inovação, do cuidado ao bem-estar”, a iniciativa procura criar um espaço de discussão, partilha de experiências e procura de respostas para uma realidade educativa em profunda transformação.
A dimensão da participação é, desde logo, um dos dados que marca esta edição. Segundo Marlene Gaio, vereadora da Câmara Municipal de Águeda com o pelouro da Educação, estão inscritas mais de 410 pessoas, incluindo profissionais da área, parceiros e representantes das associações de pais.
Mais do que uma sucessão de conferências, o Município pretende que o encontro funcione como um momento de reflexão conjunta sobre os problemas que chegam diariamente às escolas e sobre as respostas que podem ser construídas a nível local.
Marlene Gaio: Educação é um dos pilares do desenvolvimento de Águeda
Na sessão de abertura, Marlene Gaio colocou a Educação no centro da estratégia municipal para o desenvolvimento do concelho.
A vereadora defendeu que a responsabilidade de uma autarquia nesta área não pode esgotar-se na gestão das competências que foram transferidas para os municípios, como os edifícios escolares, transportes, refeições ou pessoal.
Para a responsável, essas funções são indispensáveis, mas representam apenas uma parte daquilo que deve ser a intervenção municipal. A ambição, afirmou, passa por construir um Município capaz de acompanhar as escolas, ouvir quem nelas trabalha, compreender as dificuldades das famílias e participar ativamente na procura de
soluções.


A mensagem deixada na abertura foi particularmente centrada nos alunos.
“O verdadeiramente importante são as nossas crianças e os nossos jovens.”
A frase sintetiza uma intervenção em que Marlene Gaio colocou a igualdade de oportunidades como uma das prioridades da política educativa.
Para a autarca, importa garantir que o local onde uma criança nasce ou a situação económica da sua família não determine aquilo que poderá alcançar no futuro. Do mesmo modo, uma dificuldade sentida durante o percurso escolar não pode transformar-se numa sentença definitiva sobre as capacidades ou possibilidades de um aluno.
A igualdade, nesta perspetiva, não significa simplesmente proporcionar exatamente a mesma resposta a todos, mas criar condições para que aqueles que partem de circunstâncias diferentes possam efetivamente ter oportunidades.
“Não podemos responder a uma sociedade que mudou com soluções que ficaram paradas no tempo”
Um dos pontos fortes da intervenção de abertura incidiu precisamente sobre a transformação acelerada da sociedade e os efeitos dessa mudança dentro das escolas.
As escolas de hoje, sustentou Marlene Gaio, são diferentes das que existiam há 20 ou 30 anos. Mudaram os alunos, mudaram as famílias, alteraram-se os problemas e surgiram novas exigências.
Por isso, as respostas também terão de evoluir.
“Não podemos responder a uma sociedade que mudou com soluções que ficaram paradas no tempo.”
É neste contexto que o Encontro Municipal de Educação coloca lado a lado assuntos aparentemente tão distintos como inteligência artificial, inovação, neurodesenvolvimento, currículo, felicidade, bem-estar e dificuldades de aprendizagem.
A tecnologia ocupa inevitavelmente um espaço importante, mas o Município procura igualmente deixar claro que a modernização da escola não poderá significar a perda da sua dimensão humana.
Marlene Gaio sublinhou precisamente a importância do professor que desperta a curiosidade, do educador que acredita numa criança, do assistente operacional que está atento e de uma escola onde cada jovem sente que é visto e acompanhado.


Educação não pode ser responsabilidade exclusiva das escolas
Outra das ideias defendidas no encontro é a necessidade de retirar a discussão sobre Educação exclusivamente do interior das escolas.
A política educativa de um território, afirmou a vereadora, constrói-se através da articulação entre escolas, famílias, saúde, forças de segurança, instituições sociais, associações de pais, movimento associativo e restantes entidades que intervêm na vida das crianças e jovens.
Essa participação alargada ajuda também a explicar a diversidade dos mais de 410 inscritos nesta edição.
A autarca reconheceu, ao mesmo tempo, a crescente pressão colocada sobre professores, educadores, técnicos e assistentes operacionais.
À escola são hoje exigidas respostas que ultrapassam muitas vezes o ensino propriamente dito. Problemas familiares, sociais, comportamentais e emocionais acabam por entrar diariamente pelos portões dos estabelecimentos de ensino.
Na sua intervenção, Marlene Gaio reconheceu essa realidade e assumiu o compromisso de o Município não deixar as escolas sozinhas perante esses desafios.
O futuro de Águeda também se constrói dentro das escolas
A relação entre Educação e desenvolvimento do território foi igualmente destacada.
Para o Município, o sucesso de uma política educativa não deve ser avaliado apenas através de edifícios ou equipamentos. Deve também ser medido pelas pessoas que o território consegue formar, pelas oportunidades que cria e pela capacidade de fazer com que os jovens encontrem razões para estudar, trabalhar, viver e construir o seu futuro em Águeda.
A ambição passa, assim, por conseguir que uma criança que hoje entra numa escola do concelho possa, daqui a alguns anos, reconhecer que teve oportunidades, encontrou bons professores, foi desafiada, recebeu apoio quando dele necessitou e encontrou na escola instrumentos para construir o seu próprio percurso.
Saúde mental entre as preocupações das escolas
A importância do encontro é também reconhecida pelos responsáveis dos estabelecimentos de ensino presentes no Centro de Artes.
Nas declarações recolhidas durante esta quarta-feira, foi salientada a necessidade de aproveitar o início do ano letivo para colocar em discussão problemas que atravessam atualmente toda a comunidade escolar.
A saúde mental surge entre essas preocupações.
Um dos responsáveis escolares presentes considerou particularmente importante reunir professores e discutir assuntos atuais, destacando que as questões de saúde mental não afetam exclusivamente os alunos, mas a comunidade educativa de uma forma mais abrangente.
A realização do encontro precisamente nesta fase de arranque das atividades escolares é, por isso, entendida como uma oportunidade para ouvir especialistas, confrontar experiências e preparar melhor as respostas para os próximos meses.

O desafio de responder a cada criança e a cada jovem
Outro dos testemunhos recolhidos durante o encontro aponta para uma questão central: a enorme diversidade existente dentro do próprio sistema educativo.
Um responsável escolar preferiu mesmo substituir a palavra “dificuldades” por “desafios”, considerando que uma das principais missões da escola é conseguir responder às ambições, expectativas e necessidades de cada família, criança e estudante.
Essa individualização é particularmente exigente quando dentro de uma mesma instituição coexistem percursos que podem começar aos três anos e prolongar-se até aos 18.
O objetivo, salientou, é criar condições para que cada aluno possa desenvolver o seu potencial, reconhecendo que as respostas necessárias para uma criança que entra pela primeira vez num contexto educativo são necessariamente diferentes das exigidas por um jovem que frequenta o ensino profissional.
Ensino profissional e território também em debate
A relação entre a formação e as necessidades concretas do território foi outro dos aspetos abordados.
Um representante do ensino profissional destacou a responsabilidade das escolas na formação dos cidadãos e profissionais do futuro, particularmente quando estão em causa áreas diretamente relacionadas com as características económicas, ambientais e territoriais da região.
No caso da formação ligada à natureza, floresta e máquinas florestais, foi salientada a relevância de preparar profissionais para um território marcado pela presença significativa de áreas florestais.
Neste contexto, encontros que juntam diferentes agentes são vistos como uma oportunidade para discutir estratégias e perceber aquilo que poderá ser feito coletivamente em benefício do concelho.
Inteligência artificial entra definitivamente na discussão sobre a escola
Se há um tema que demonstra a velocidade da transformação da Educação, é a Inteligência Artificial.
A questão atravessa o programa do encontro e foi igualmente abordada pelos responsáveis escolares ouvidos durante o primeiro dia.
O desafio já não passa apenas pela utilização de novas ferramentas tecnológicas. Passa também por preparar os alunos para compreenderem e utilizarem essas tecnologias de forma adequada numa sociedade onde a mudança acontece a uma velocidade crescente.
Um dos responsáveis presentes defendeu precisamente que a escola tem de conseguir formar alunos capazes de responder às exigências do século em que vivem e prepará-los para serem cidadãos ativos numa sociedade em rápida evolução.
Essa transformação coloca novas questões no quotidiano escolar.
Entre elas encontra-se a necessidade de desenvolver literacia para lidar com a inteligência artificial, a par das alterações relacionadas com a utilização de telemóveis nos estabelecimentos de ensino. São mudanças que obrigam escolas e profissionais a conhecer as novas realidades, refletir sobre elas e adaptar as suas práticas.
Um programa que cruza ciência, pedagogia, tecnologia e bem-estar
O programa dos dois dias procura refletir precisamente esta visão multidisciplinar.
Com apresentação de João Paulo Sousa, o Encontro Municipal de Educação reúne nomes como Nuno Lobo Antunes, Bruno Leite, Ana Maria Soromenho, Marcelo Cruz, Eduardo Sá, António Sampaio da Nóvoa e Rita Bonança.
O primeiro dia contempla, entre outros momentos, uma intervenção de Nuno Lobo Antunes dedicada à relação entre cérebro, neurodesenvolvimento, aprendizagem e bem-estar, bem como uma abordagem de Bruno Leite à construção do projeto curricular de grupo.
A tarde inclui ainda o podcast “Reunião de Pais”, com João Paulo Sousa e Gonçalo Oliveira.
A programação ganha novo fôlego amanhã, quinta-feira, 10 de setembro.
O segundo dia começa com uma abordagem de Ana Maria Soromenho à preparação do corpo e da mente para aprender, seguindo-se Marcelo Cruz, responsável pelo Google for Education em Portugal, com uma intervenção dedicada à Inteligência Artificial e inovação pedagógica.
O psicólogo e psicanalista Eduardo Sá leva ao encontro a questão “Educar para a Felicidade: missão da escola?”, enquanto António Sampaio da Nóvoa aborda “A Educação como motor de desenvolvimento local”.
A programação inclui ainda Rita Bonança, numa intervenção dedicada à dislexia — compreender, apoiar e intervir — e termina com nova participação de Ana Maria Soromenho, desta vez em torno da natureza, movimento e aprendizagem ativa fora da sala de aula.

Pensar hoje a escola que Águeda quer amanhã
Ao reunir durante dois dias diferentes gerações, áreas profissionais e perspetivas sobre a Educação, o encontro pretende ir além do diagnóstico dos problemas.
O objetivo assumido passa por confrontar ideias e procurar caminhos.
A própria seleção dos convidados foi pensada, segundo Marlene Gaio, para proporcionar diferentes olhares e experiências. A intenção não é apenas ouvir intervenções que confirmem aquilo que já é feito, mas trazer a Águeda pessoas capazes de questionar práticas, desafiar convicções e provocar novas formas de pensar a Educação.
Essa reflexão ganha particular relevância num momento em que o sistema educativo é confrontado simultaneamente com problemas antigos e desafios completamente novos: saúde mental, inclusão, dificuldades de aprendizagem, transformação tecnológica, inteligência artificial, alterações sociais, novas relações familiares e diferentes expectativas sobre aquilo que se exige à escola.
No centro de todas essas mudanças permanece, contudo, a mesma questão: como preparar cada criança e cada jovem para o futuro sem perder a dimensão humana da Educação?
É essa discussão que está a decorrer esta quarta-feira no Centro de Artes de Águeda e que continuará amanhã.
O Encontro Municipal de Educação 2026 termina quinta-feira, 10 de setembro, depois de dois dias de reflexão sobre a escola e sobre o papel que professores, famílias, instituições e comunidade podem assumir na construção do futuro do concelho.
Um encontro que parte do conhecimento, passa pela inovação, mas coloca no centro da discussão aquilo que o próprio mote da iniciativa sintetiza: o cuidado e o bem-estar de quem aprende e de quem educa.
