Decorreu esta quinta-feira à tarde, nas instalações da Miranda & Irmão, em Águeda, uma sessão de apresentação técnica e institucional que evidenciou, com elevado detalhe, a profunda transformação industrial em curso na empresa no âmbito da Agenda Mobilizadora AM2R – dedicada à inovação no setor das duas rodas e financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A iniciativa, que incluiu visita ao chão de fábrica e intervenções de responsáveis da empresa e entidades públicas, revelou uma estratégia estruturada de investimento, modernização e reposicionamento competitivo, sustentada numa lógica de integração vertical e de redução da dependência externa.
Ao longo da sessão foi destacado que a Miranda está a implementar uma alteração estratégica significativa, assente na internalização da maioria dos seus processos produtivos, numa clara resposta às fragilidades das cadeias globais de abastecimento. Esta mudança traduziu-se numa redução muito expressiva da dependência de importações extracomunitárias, passando de cerca de 23% em 2022 para aproximadamente 4% na atualidade, o que representa um reforço da autonomia produtiva e da resiliência industrial. Esta reconfiguração permite à empresa assumir um controlo integral sobre a qualidade dos seus produtos, reduzir prazos de entrega e aumentar a flexibilidade na resposta ao mercado, posicionando-se como fornecedor europeu de proximidade, particularmente relevante num contexto económico internacional marcado por instabilidade logística e geopolítica.
Com cerca de 200 trabalhadores, a empresa tem vindo a apostar fortemente na capacitação interna, através da aquisição de novas máquinas, reorganização dos processos produtivos e exploração de novas tecnologias industriais, garantindo que a maioria das operações críticas decorre dentro de portas. Esta estratégia está diretamente alinhada com os investimentos realizados no âmbito da Agenda AM2R, cujo volume global previsto ascende a 10,59 milhões de euros, dos quais já foram executados mais de 8,05 milhões, correspondendo a uma taxa de execução próxima dos 76%, com uma projeção final de cerca de 86% .
No plano tecnológico e industrial, a Miranda está a desenvolver um conjunto de projetos estruturantes que visam a criação de novos componentes para bicicletas convencionais e elétricas, nomeadamente rodas pedaleiras em aço e alumínio, eixos de alumínio e eixos específicos para e-bikes. Estes projetos assentam na introdução de ligas metálicas avançadas e na implementação de processos produtivos inovadores, como a estampagem a frio de alta capacidade, que permite aumentar significativamente a cadência produtiva, reduzir consumos energéticos e minimizar desperdícios. A instalação de equipamentos industriais de elevada performance, como prensas de 1200 toneladas, e a aposta em tecnologias de precisão, como a brochagem para interfaces críticas, reforçam a capacidade da empresa para produzir componentes mais leves, resistentes e adaptados às exigências do mercado de mobilidade elétrica.
Paralelamente, a empresa está a promover uma transformação digital profunda, integrando sistemas inteligentes que permitem uma gestão totalmente integrada da produção e da logística. Entre as soluções implementadas destacam-se sistemas de rastreabilidade baseados em RFID, plataformas de digitalização documental com recurso a inteligência artificial e soluções cloud que permitem associar a cada produto um conjunto de dados técnicos e ambientais ao longo do seu ciclo de vida. Esta integração entre sistemas produtivos e plataformas digitais elimina redundâncias, reduz intervenção manual e potencia uma tomada de decisão baseada em dados em tempo real, contribuindo para ganhos de eficiência operacional e competitividade .
A sustentabilidade surge igualmente como um eixo central desta estratégia, sendo evidenciada através da redução da pegada carbónica, da aposta em materiais recicláveis e da implementação de práticas de economia circular. A relocalização de fornecedores para o espaço europeu e a internalização de processos contribuem para a diminuição das emissões associadas ao transporte, enquanto a otimização dos processos produtivos reduz significativamente o desperdício de matéria-prima. A empresa assume ainda um compromisso com a descarbonização e com o cumprimento das metas ambientais europeias, integrando estes princípios no desenvolvimento dos seus produtos e na gestão da sua cadeia de valor.
Do ponto de vista económico, estes investimentos traduzem-se num reforço da capacidade exportadora, na criação de emprego qualificado e na consolidação do posicionamento de Portugal como um dos principais polos industriais europeus no setor das duas rodas. A Miranda afirma-se, assim, como um dos pilares do consórcio AM2R, contribuindo para a autonomia tecnológica europeia e para o fortalecimento de um cluster industrial estratégico para a mobilidade sustentável.
Na vertente institucional, o presidente da Câmara Municipal de Águeda, Jorge Almeida, destacou a empresa como um exemplo paradigmático de aproveitamento eficaz dos fundos do PRR, sublinhando o seu contributo para o aumento da competitividade nacional e para o crescimento económico. O autarca referiu ainda o desempenho do município na execução de fundos europeus, salientando que Águeda é atualmente um dos concelhos mais dinâmicos da região Centro nesse domínio, evidenciando a forte capacidade de concretização de projetos estruturantes.
Com mais de 75 anos de atividade e três gerações envolvidas, a Miranda demonstra, através deste conjunto de investimentos, uma capacidade consistente de adaptação às exigências do mercado global, combinando tradição industrial com inovação tecnológica. A sessão desta quinta-feira confirmou que a empresa está a consolidar um modelo industrial avançado, assente na autonomia, na sustentabilidade e na digitalização, posicionando-se na linha da frente da transformação do setor das duas rodas a nível europeu.


















