O jornalismo não se escreve apenas na secretária

Há textos que falam muito sobre jornalismo. Falam de ética, de independência editorial, de memória coletiva e do papel nobre da imprensa na democracia. São textos bem escritos, geralmente reflexivos, que lembram ao leitor aquilo que o jornalismo deveria ser.

O problema começa quando se confunde falar sobre jornalismo com fazer jornalismo.

Porque o jornalismo raramente acontece sentado numa secretária.

Acontece na rua. Acontece no terreno. Acontece quando alguém decide levantar-se da cadeira, pegar num bloco ou numa câmara e ir ver o que realmente se passa. Acontece de madrugada, ao fim de semana, nos feriados, nas noites frias de inverno e nas tardes quentes de verão. Acontece quando há um acidente, um incêndio, uma inundação, um protesto ou simplesmente uma história que merece ser contada.

Jornalismo é presença.

É estar quando algo acontece.
É chegar antes do comunicado de imprensa.
É ouvir pessoas, ver lugares, confirmar factos e regressar com algo que não estava previamente escrito num e-mail institucional.

Durante muitos anos, uma parte da imprensa local habituou-se a um modelo confortável: esperar que a informação chegasse pronta. Notas oficiais, declarações filtradas, agendas preparadas. Depois bastava organizar o texto, publicar e chamar-lhe notícia.

Mas os leitores mudaram.

Hoje conseguem perceber rapidamente quem está no terreno e quem está apenas a reproduzir o que outros escreveram primeiro. Percebem quem aparece quando as coisas acontecem e quem surge depois para comentar a importância do jornalismo.

E isso reflete-se de forma simples: na confiança e na atenção do público.

Projetos jornalísticos muito recentes, alguns com apenas poucos anos de existência, conseguiram mobilizar comunidades enormes de leitores e seguidores. Não porque tenham mais tradição, mais história ou mais páginas impressas. Conseguiram porque fazem algo básico: estão presentes.

Enquanto isso, há órgãos com mais de um século de história que continuam a recordar o seu passado glorioso. A história é importante, claro. Mas a história, por si só, não faz jornalismo hoje.

O jornalismo faz-se todos os dias.

Faz-se quando alguém sai de casa a qualquer hora porque algo aconteceu.
Faz-se quando se perde um jantar de família para ir acompanhar uma ocorrência.
Faz-se quando se está no terreno a ouvir pessoas em vez de esperar que alguém envie uma frase pronta por e-mail.

É um trabalho menos romântico do que alguns textos fazem parecer. E também menos confortável.

Talvez por isso haja uma diferença crescente entre falar de jornalismo e praticá-lo.

Quem está no terreno todos os dias sabe que a independência editorial não se proclama, demonstra-se. Não se escreve apenas em editoriais bem compostos. Constrói-se com presença, trabalho e proximidade com a realidade.

No fim, os leitores acabam sempre por reconhecer essa diferença.

Porque o jornalismo verdadeiro não se limita a refletir sobre si próprio.

Sai da secretária e vai ver o mundo.

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