Ousadia FC levou futebol e influenciadores a Águeda num dia que Ricardo Pereira quer transformar num passo para o futuro

O Estádio Municipal de Águeda recebeu ontem, domingo, 30 de agosto, um “Match Day” que juntou futebol de formação, competição, entretenimento e vários influenciadores portugueses e brasileiros. A iniciativa aproximou a Academia Guerreiros de Vale Domingos do projeto espanhol Ousadia FC e deixou aberta a porta à realização de novas iniciativas entre os dois clubes. Para Ricardo Pereira, presidente da academia aguedense, o dia serviu também para mostrar o crescimento alcançado em apenas três anos e para reforçar uma reivindicação que considera cada vez mais urgente: melhores condições e um espaço próprio para um projeto que deverá ultrapassar os 200 atletas esta temporada.

Futebol, influenciadores, redes sociais, formação e entretenimento cruzaram-se ontem no Estádio Municipal de Águeda numa jornada diferente do habitual. O “Match Day” organizado em torno da presença do Ousadia FC trouxe até Águeda um projeto espanhol que construiu uma parte significativa da sua notoriedade através do universo digital e colocou frente a frente duas estruturas jovens, mas com ambições assumidas de crescimento.

O programa prolongou-se durante várias horas e incluiu futebol de formação, desafios individuais, um encontro entre influenciadores portugueses e brasileiros e o jogo principal entre o Ousadia FC e a Academia Guerreiros de Vale Domingos.

Mais do que os resultados, o ambiente e a dimensão digital do evento acabaram por assumir grande parte do protagonismo. Nas bancadas e junto ao terreno de jogo estiveram jovens seguidores de vários dos criadores de conteúdos presentes, enquanto dentro das quatro linhas se misturaram competição e espetáculo.

Yuri Santoro, do Ousadia FC, explicou à reportagem que Portugal ocupa já uma posição particularmente importante na comunidade que acompanha o clube, sendo o segundo maior público da audiência digital do projeto. O responsável não escondeu que a deslocação a Águeda teve também uma componente estratégica, numa altura em que o Ousadia pretende começar a preparar uma expansão para Portugal.

“Estamos agora em Espanha, mas, de pouco em pouco, vamos fazendo essa expansão e começa por movimentos como hoje”, explicou Yuri Santoro, assumindo que iniciativas desta natureza permitem ao projeto testar a sua implantação fora do território espanhol.

A ligação criada com a Academia Guerreiros de Vale Domingos poderá, por isso, não terminar com o encontro de domingo. O responsável do Ousadia confirmou que existe uma visão de longo prazo e admitiu a realização de novos projetos conjuntos, depois de avaliada esta primeira experiência em Águeda.

Mas se a dimensão internacional e digital do Ousadia foi uma das imagens fortes da jornada, do lado da Academia Guerreiros de Vale Domingos o dia foi vivido como mais uma etapa num projeto que Ricardo Pereira considera estar a entrar numa fase decisiva.

O presidente da academia não escondia a satisfação com aquilo que encontrou no Estádio Municipal.

“Estamos muito felizes porque conseguimos trazer várias pessoas aqui ao Estádio Municipal de Águeda. Conseguimos ter momentos de bom futebol, momentos de alegria”, afirmou Ricardo Pereira durante o encontro entre influenciadores portugueses e brasileiros.

Para o dirigente, um dos aspetos mais importantes esteve precisamente no ambiente criado entre pessoas de diferentes nacionalidades e projetos.

Ricardo Pereira destacou o entusiasmo do público, dividido entre o apoio aos portugueses e aos brasileiros, mas fez questão de colocar a mensagem para além da rivalidade desportiva.

“Tem sido um dia de amizade, um dia de diversão, mas de competição também”, afirmou, acrescentando uma ideia que considera fundamental na forma como olha para o futebol: “Uma coisa é sermos adversários. Outra coisa é sermos inimigos.”

Foi precisamente nesse espírito que o dirigente avaliou a relação estabelecida com o Ousadia FC.

“Nós temos muitos adversários, mas não queremos ter inimigos e queremos ter cada vez mais amigos. Neste momento ganhámos aqui uns amigos que penso que vão ficar para a vida, que é o Ousadia Futebol Clube”, declarou.

A jornada de domingo serviu igualmente para mostrar a dimensão que as redes sociais assumem atualmente no crescimento de projetos desportivos mais jovens. A Academia Guerreiros de Vale Domingos estabeleceu, quando iniciou o seu percurso, uma meta de crescimento digital de cerca de mil seguidores por ano. Três anos depois, essa previsão já foi ultrapassada.

“Nós tínhamos o objetivo de ter mil seguidores por ano. Já passámos os quatro mil”, revelou Ricardo Pereira.

O presidente reconhece que a presença digital deixou de ser um elemento secundário na gestão de um clube de formação. Para chegar às novas gerações, entende ser indispensável perceber onde estão os jovens e como consomem informação e conteúdos.

“Hoje em dia há várias coisas que temos que perceber. No futebol não podemos andar por vaidade. Temos de andar com trabalho”, afirmou, defendendo simultaneamente a importância das parcerias e das redes sociais para alcançar diferentes públicos.

É precisamente nesse contexto que Ricardo Pereira enquadra a aproximação ao Ousadia FC. O projeto espanhol tem uma presença digital muito superior à dimensão competitiva que atualmente ocupa e utiliza a produção de conteúdos como uma das principais ferramentas para aproximar jovens adeptos do futebol.

Também os influenciadores portugueses presentes reconheceram essa capacidade. Hélder considerou que uma iniciativa desta natureza dá visibilidade não apenas à Academia Guerreiros de Vale Domingos, mas à própria cidade.

“A Ousadia, que é muito famosa, já vai ficar a saber o que é Águeda, que Águeda tem coisas muito positivas, muito interessantes”, afirmou.

Para Ricardo Pereira, porém, a projeção alcançada no domingo não pode esconder aquela que considera ser a questão fundamental para o futuro da academia: as condições para continuar a crescer.

O projeto chegou aos três anos de existência com resultados desportivos acima daqueles que o próprio presidente tinha estabelecido inicialmente.

“Eu não gosto de criar expectativas ou objetivos que não consiga cumprir”, começou por explicar. “No início da Academia disse que o objetivo era, em três anos, ter pelo menos uma equipa no Campeonato de Elite e, em cinco anos, ter pelo menos uma equipa nacional.”

A primeira meta foi largamente ultrapassada.

“Em três anos conseguimos três equipas no Campeonato de Elite”, salientou Ricardo Pereira.

A subida dos Sub-19, alcançada no final da última temporada, permitiu juntar este escalão aos Sub-15 e Sub-17 entre as equipas da academia que competem na Elite. O feito já tinha sido destacado no final de maio, quando os Sub-19 garantiram a promoção depois de vencerem Cucujães e Fermedo nos jogos decisivos.

O próximo objetivo está agora claramente identificado.

“É uma questão de tempo. Mais tarde ou mais cedo vamos colocar equipas no Campeonato Nacional”, afirmou Ricardo Pereira.

O presidente acredita mesmo que a Academia Guerreiros de Vale Domingos já poderia ter alcançado esse patamar. Recordou a temporada realizada pelos Sub-17 e assumiu pessoalmente a responsabilidade por não ter conseguido proporcionar melhores condições à equipa.

“Nós já podíamos ter tido este ano. A nossa equipa de Sub-17 tinha tudo para subir ao Campeonato Nacional. Não conseguimos. Não foi por culpa do treinador, não foi por culpa da equipa, foi por minha culpa porque não consegui dar à equipa as condições que a equipa merecia”, declarou.

Foi a partir daí que Ricardo Pereira deixou uma das mensagens mais fortes da entrevista: a Academia precisa de uma casa própria.

“Neste momento acho que nós, se queremos continuar a crescer, está na altura de termos um campo próprio.”

O dirigente reconhece que encontrar uma solução não será simples, mas considera que a situação atual está a limitar objetivamente o desenvolvimento desportivo da estrutura.

“Não é fácil. Sinceramente, é uma coisa em que andamos a pensar e que não sabemos bem como é que vamos solucionar, mas temos que solucionar rápido”, afirmou.

Ricardo Pereira deu como exemplo aquilo que aconteceu na época passada com os Sub-17. A equipa terminou a temporada a apenas oito pontos da subida, mas enfrentou dificuldades constantes para organizar os treinos.

“A maior parte das semanas, em cada dia da semana, treinou num sítio diferente e depois, ao fim de semana, às vezes ainda ia jogar noutro sítio. Não tem lógica”, lamentou.

O crescimento do número de praticantes torna o problema ainda mais evidente. Segundo Ricardo Pereira, a academia deverá ultrapassar nesta temporada a barreira dos 200 atletas, mas ficará condicionada na capacidade de receber mais jovens precisamente pela inexistência de instalações suficientes.

“Nós este ano vamos chegar a ultrapassar a meta dos 200. Não vamos conseguir mais porque não temos instalações”, revelou.

E deixou um apelo direto às entidades e empresas que acompanham o desenvolvimento do desporto no concelho.

“Estes meninos também merecem que eu, que sou o máximo responsável, trabalhe para lhes dar melhores condições e infelizmente eu não consigo se não tiver apoio.”

Ricardo Pereira entende que, passados três anos, já existem resultados suficientes para que o projeto seja avaliado de forma diferente daquela que encontrou quando nasceu.

“Olhem para nós de uma forma diferente e encarem-nos de uma forma séria para também nos ajudarem a crescer ou, pelo menos, deem-nos condições para termos bons resultados”, pediu.

O dirigente enquadra essa ambição numa realidade mais abrangente do futebol de formação de Águeda. Segundo Ricardo Pereira, há várias décadas que o concelho não consegue colocar uma equipa masculina de formação nos campeonatos nacionais, considerando que alterar essa realidade teria impacto muito para além da própria academia.

“Vamos continuar a estar perto, mas merecemos porque também vamos trazer reconhecimento para Águeda. Isso também é prestigiante e os melhores atletas quererem voltar para o concelho de Águeda é bom”, afirmou.

A entrevista serviu também para Ricardo Pereira falar de um tema que considera particularmente importante: as relações entre clubes.

O presidente da Academia Guerreiros de Vale Domingos rejeitou uma visão de confronto permanente entre instituições e fez questão de reconhecer publicamente a importância dos restantes emblemas do concelho, mencionando, entre outros, Recreio de Águeda, Valonguense, Mourisquense e Fermentelos.

“Todos nós somos importantes”, afirmou.

Ricardo Pereira admitiu que nem sempre as relações foram fáceis e reconheceu inclusivamente erros próprios. Recordou uma situação ocorrida no primeiro ano com elementos do Valonguense e revelou que posteriormente procurou os responsáveis para pedir desculpa.

“Eu sei que também falhei. Sei que também falho”, assumiu, reiterando depois a mesma filosofia que marcou a sua avaliação do encontro com o Ousadia: “Podemos ter muitos adversários, mas não sinto ninguém como inimigo. Não estou no futebol para fazer inimigos, nem estou na vida.”

O dirigente deixou ainda um agradecimento particular ao Massinhatense e ao seu presidente, Galhano, pelo apoio prestado à academia durante a última temporada.

“Se não fosse este ano o Galhano, se não fosse a direção do Massinhatense, eu não sei como é que teríamos sobrevivido, com toda a sinceridade”, afirmou Ricardo Pereira, considerando que essa colaboração foi determinante para garantir condições mínimas de treino aos jovens atletas.

Também a Câmara Municipal de Águeda mereceu uma referência expressa. Ricardo Pereira agradeceu a intervenção do Município para que a jornada de domingo pudesse decorrer no Estádio Municipal e deixou uma mensagem de disponibilidade para colaborar com todas as estruturas desportivas do concelho.

“Estamos à disposição de toda a gente para ajudar e gostávamos que fosse recíproco”, afirmou.

O dirigente defendeu que o desenvolvimento do futebol de formação só terá a ganhar se as instituições forem capazes de ultrapassar diferenças pessoais e trabalharem conjuntamente.

“Se quisermos fazer coisas boas, devemos ter um sentimento de que somos todos iguais e que as oportunidades são iguais para todos. Se queremos ter sucesso, às vezes temos de dar as mãos uns aos outros, mesmo com quem não gostamos tanto.”

No final, Ricardo Pereira voltou ao essencial: a Academia Guerreiros de Vale Domingos não pretende simplesmente existir ou limitar-se a colocar equipas em competição.

“Se não dermos este passo, tornamo-nos um clube existencial. Existimos por existir. Se tivermos equipas competitivas, temos; se não tivermos, não temos. E não é este tipo de clube que nós queremos ser”, afirmou.

A filosofia, explica, passa simultaneamente pela formação desportiva e humana, sem considerar que a ambição de vencer seja incompatível com a educação dos jovens.

“Nós queremos trabalhar os nossos meninos. Queremos ser formação de homens e mulheres, mas o ganhar, o querer ganhar, o trabalhar para ganhar não tira o foco de formar bons homens e boas mulheres.”

Ricardo Pereira quer que essa exigência seja uma aprendizagem que ultrapasse o futebol.

“Na vida, para conquistar algo, temos que trabalhar”, afirmou, esperando que, independentemente de chegarem ou não ao futebol sénior de alto nível, os jovens que passam pela academia levem consigo essa cultura de trabalho e superação.

Foi neste contexto que terminou um domingo que começou como uma jornada de futebol e entretenimento e acabou por deixar várias pistas sobre o futuro.

O Ousadia FC encontrou em Águeda uma porta para Portugal e confirmou a intenção de continuar a desenvolver projetos com a Academia Guerreiros de Vale Domingos. A academia, por seu lado, ganhou exposição junto de uma comunidade digital de grande dimensão, reforçou relações internacionais e mostrou um projeto que, três anos depois de nascer, já colocou três equipas nos Campeonatos de Elite.

Mas Ricardo Pereira deixou claro que não pretende que o crescimento termine aqui.

Com mais de quatro mil seguidores, a perspetiva de ultrapassar os 200 atletas, três equipas na Elite e o objetivo assumido de chegar aos campeonatos nacionais, o presidente considera que chegou o momento de resolver aquela que identifica como a principal fragilidade da academia: a falta de instalações próprias.

O “Match Day” de domingo mostrou uma Academia Guerreiros de Vale Domingos virada para fora, capaz de trazer a Águeda um projeto internacional com uma enorme dimensão digital. As palavras do seu presidente mostraram, porém, que o desafio que se segue está muito mais perto de casa: encontrar as condições que permitam transformar o crescimento dos primeiros três anos num projeto desportivo sustentável e capaz de levar novamente a formação masculina de Águeda aos campeonatos nacionais.

0