Tragédia de Entre-os-Rios faz 25 anos: apenas 23 dos 59 corpos foram encontrados

Assinalam-se esta terça-feira 25 anos sobre a queda da Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, concelho de Castelo de Paiva, uma das maiores tragédias da história recente de Portugal. O colapso da estrutura, na noite de 4 de março de 2001, provocou 59 mortos. Apenas 23 corpos foram recuperados.

Eram cerca das 21h10 quando o quarto pilar da ponte cedeu subitamente, fazendo ruir a parte central do tabuleiro. Um autocarro e três viaturas ligeiras foram arrastados para as águas do rio Douro. O grupo que seguia no autocarro regressava de uma excursão a Trás-os-Montes para ver as amendoeiras em flor.

Na década anterior ao acidente, a ponte já apresentava sinais de degradação e tinha sido alvo de perícias que apontavam para o risco de colapso. O impacto político foi imediato. O então ministro do Equipamento, Jorge Coelho, apresentou a demissão horas depois, afirmando que “a culpa não pode morrer solteira”.

O inquérito governamental concluiu que o desabamento resultou de uma “conjugação de fatores”. Em outubro de 2006, o tribunal absolveu quatro engenheiros da antiga Junta Autónoma das Estradas e dois de uma empresa projetista, que tinham sido acusados pelo Ministério Público, por falta de provas.

Na sequência da tragédia, foram introduzidas alterações estruturais, incluindo a proibição da extração de areias nos rios portugueses. O Estado pagou indemnizações de 50 mil euros a cada família enlutada, com valores adicionais entre 10 e 20 mil euros por herdeiro, consoante o grau de parentesco.

36 corpos nunca foram encontrados

Das 59 vítimas mortais, 36 corpos nunca foram recuperados, apesar das buscas que se prolongaram durante meses. As vítimas eram maioritariamente dos concelhos de Castelo de Paiva, Cinfães, Gondomar e Penafiel.

Vinte e cinco anos depois, há familiares que continuam a necessitar de acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Em declarações à Lusa, Augusto Moreira, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios, estima que mais de 20 familiares ainda precisem de apoio especializado. “Há muitos casos de pessoas que não são capazes de mexer num quarto de um familiar”, afirmou.

Memória mantida junto ao “Anjo de Portugal”

Em Castelo de Paiva, duas famílias continuam a rezar mensalmente o terço junto ao monumento “Anjo de Portugal”, erguido em memória das vítimas. A obra, da autoria do arquiteto Henrique Coelho, tem inscritos na base os nomes das 59 pessoas que perderam a vida.

Arlindo Lopes, que perdeu três familiares no acidente — o irmão, a cunhada e um sobrinho de quatro anos — desloca-se regularmente ao memorial, situado junto à ponte reconstruída. “Virmos cá rezar o terço é um momento espiritual de manter viva a memória dos nossos familiares”, referiu.

Um quarto de século depois, a tragédia de Entre-os-Rios continua a marcar a vida de dezenas de famílias, mantendo em suspenso memórias e lutos que o tempo não conseguiu apaziguar.

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