Três anos, três equipas na Elite e uma lição para o futebol

Os Guerreiros de Vale Domingos cresceram sem campo próprio, carregando a casa às costas. Talvez tenha chegado o momento de o poder local olhar para este projeto com outros olhos.

Há histórias no futebol que merecem ser contadas pelos títulos conquistados. Outras, pelas classificações alcançadas. Mas existem histórias que merecem ser contadas por algo ainda mais importante: pela capacidade de transformar dificuldades em força, obstáculos em motivação e limitações em resultados. A história da Academia de Futebol de Vale Domingos – Guerreiros do Minho é uma dessas histórias. E talvez esteja na altura de quem tem responsabilidades públicas no concelho de Águeda começar também a olhar para este projeto com outros olhos. Não como mais um pequeno clube no vasto panorama desportivo do concelho, mas como um projeto que, em apenas três anos de existência, demonstrou capacidade, organização, ambição e, acima de tudo, resultados. O poder local tem, naturalmente, de apoiar todo o movimento associativo e desportivo, mas apoiar não pode significar ignorar o percurso, o crescimento, as necessidades e o mérito de quem demonstra, através do trabalho, que merece ser reconhecido. A igualdade não pode significar cegueira perante o mérito.

Em apenas três anos, a Academia de Futebol de Vale Domingos – Guerreiros do Minho conseguiu aquilo que muitos clubes, com décadas de história, infraestruturas próprias e condições que outros apenas podem desejar, continuam a procurar: colocar três equipas, Sub-15, Sub-17 e Sub-19, na Elite Distrital de Aveiro, o principal escalão distrital. Mais significativo ainda é o facto de ser o único clube do concelho de Águeda a ter simultaneamente estes três escalões nesse patamar competitivo. Não se trata de um detalhe. Trata-se de um feito que merece respeito e que deveria obrigar quem tem responsabilidades na gestão do desporto no concelho a olhar para este projeto não apenas pelo que é hoje, mas também por aquilo que pode vir a ser amanhã. Porque estamos perante um clube jovem, praticamente acabado de nascer, que ainda está a construir a sua identidade e a consolidar a sua estrutura, mas que já demonstrou uma capacidade competitiva e organizativa que não pode simplesmente passar despercebida.

Mas há um detalhe que torna esta história ainda mais extraordinária: este clube não tem campo próprio. Enquanto muitos clubes têm uma casa, instalações, campos, balneários e rotinas perfeitamente estabelecidas, os Guerreiros de Vale Domingos vivem uma realidade completamente diferente. Vivem, muitas vezes, com a casa às costas. Treinam onde podem, jogam onde lhes é permitido, deslocam-se, adaptam-se, organizam-se e procuram constantemente soluções. Não é fácil construir um projeto desportivo quando não se tem uma casa. Não é fácil criar rotinas quando se depende de espaços que não são seus. Não é fácil construir uma identidade quando atletas, treinadores e dirigentes sabem que, muitas vezes, o local onde hoje trabalham poderá não ser aquele onde estarão amanhã. E, apesar de tudo isto, o projeto continua a crescer. Talvez seja precisamente aí que esteja uma das suas maiores forças: quando não existe uma casa feita de paredes, cimento e bancadas, é preciso construir uma casa diferente, feita de pessoas, compromisso, trabalho, sacrifício e uma ideia comum.

Em apenas três anos, os Guerreiros de Vale Domingos demonstraram que as infraestruturas são fundamentais, mas não substituem competência; que os campos são necessários, mas não marcam golos; e que nenhum edifício, por mais moderno que seja, consegue substituir aquilo que realmente faz crescer um projeto: pessoas capazes, organizadas, comprometidas e com uma visão clara do caminho que querem percorrer. A presença dos Sub-15, Sub-17 e Sub-19 na Elite Distrital não é obra do acaso, nem um golpe de sorte. É o resultado de trabalho, planeamento, competência e ambição. É a demonstração de que, mesmo perante dificuldades que poderiam servir de desculpa, houve quem preferisse procurar soluções e continuar a avançar. E é precisamente por isso que o poder local deveria começar a olhar para este projeto de outra forma. Não se trata de escolher clubes, nem de criar privilégios injustificados. Trata-se de reconhecer mérito e perceber que tratar todos exatamente da mesma forma, ignorando as diferentes realidades, os resultados e as necessidades, nem sempre significa ser justo.

A Câmara Municipal de Águeda deve apoiar o movimento associativo e desportivo do concelho, mas deve também ter a capacidade de identificar projetos que demonstram crescimento, competência e potencial para continuar a evoluir. E quando um clube consegue atingir este nível competitivo sem sequer possuir um campo próprio, é legítimo perguntar: o que poderia este projeto alcançar se tivesse finalmente condições mais estáveis e uma verdadeira casa? Apoiar os Guerreiros de Vale Domingos não seria apenas apoiar um clube. Seria apoiar jovens, treinadores, dirigentes e famílias. Seria apoiar a formação desportiva e acreditar num projeto que já demonstrou, em apenas três anos, que tem capacidade para fazer muito mais. Porque o futebol de formação não pode ser apenas um discurso bonito sobre a importância dos jovens e do futuro. É preciso criar condições para que quem trabalha bem possa continuar a fazê-lo. Não basta elogiar os resultados quando eles aparecem; é preciso ajudar a criar condições para que esses resultados possam continuar a acontecer.

Claro que o futuro será ainda mais exigente. Estar na Elite é uma conquista, mas manter-se nesse patamar será um desafio ainda maior. Ter três equipas no principal escalão distrital significa enfrentar clubes com estruturas mais consolidadas, mais história, melhores condições e, em muitos casos, instalações próprias. Mas, se há algo que estes primeiros três anos demonstraram, é que nunca devemos subestimar quem aprendeu a crescer perante as dificuldades. Quem está habituado a ter tudo pode sentir maiores dificuldades quando alguma coisa falta. Mas quem aprendeu, desde o primeiro dia, a trabalhar sem ter tudo aprende também a encontrar soluções onde outros apenas encontram problemas. Os Guerreiros de Vale Domingos ainda são jovens enquanto clube, mas já construíram uma caminhada que merece ser respeitada.

Hoje, não têm um campo que possam verdadeiramente chamar de seu. Mas têm um projeto, têm pessoas, têm atletas, têm treinadores, têm dirigentes e têm famílias que acreditam. Têm uma identidade que está a ser construída todos os dias e têm resultados que provam que o caminho seguido tem valor. A casa ainda pode não estar construída, mas os alicerces estão lá. E talvez tenha chegado o momento de a Câmara Municipal de Águeda perceber que apoiar quem trabalha, cresce e apresenta resultados não é fazer um favor: é investir no futuro. Não se pede um privilégio. Pede-se reconhecimento. Não se pede que façam o caminho por eles. Pede-se que não lhes coloquem mais obstáculos no caminho. Os Guerreiros de Vale Domingos já provaram que conseguem avançar mesmo sem uma casa. Mas, depois de tudo aquilo que conquistaram em apenas três anos, talvez tenha chegado o momento de o poder local olhar para este projeto com outros olhos e perceber que apoiar quem já demonstrou capacidade para crescer é, acima de tudo, acreditar no futuro do desporto do concelho.

Porque, até hoje, os Guerreiros de Vale Domingos provaram que conseguem carregar a casa às costas e continuar a vencer. A grande questão é outra: até onde poderão chegar quando, finalmente, tiverem uma casa para chamar sua?

E mais não digo…

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