Um mês depois dos incêndios que atingiram violentamente a freguesia de Préstimo e Macieira de Alcoba, as marcas continuam bem presentes no território e na memória de quem viveu aqueles dias. O fogo, que teve origem no concelho de Vouzela e avançou para Águeda sob condições meteorológicas particularmente adversas, encontrou nesta freguesia uma das áreas mais afetadas. Desde então, a Junta tem concentrado esforços na recuperação, incluindo a reposição de cerca de 25 quilómetros de tubagens e o apoio aos produtores e criadores de animais atingidos.
Passou um mês, mas para quem esteve no terreno as imagens continuam difíceis de esquecer. O presidente da Junta de Freguesia de Préstimo e Macieira de Alcoba recorda aqueles dias como um período de enorme tensão, marcado pela rapidez e violência com que as chamas avançaram sobre o território.
“Quem viveu aqueles dias sabe que não estamos a falar de um incêndio normal”, recorda, explicando que o fogo começou em Vouzela e, impulsionado pelos ventos fortes, temperaturas elevadas e sucessivas projeções, avançou rapidamente em direção ao concelho de Águeda, entrando na freguesia e atravessando várias localidades.
Perante um comportamento do incêndio considerado excecional pelas próprias autoridades, a prioridade passou imediatamente pela proteção das populações, das habitações e das explorações agrícolas.
A Junta de Freguesia esteve no terreno através da sua Unidade Local de Proteção Civil, num trabalho desenvolvido em articulação com os meios de socorro e com a própria população. Num território rural e extenso, o conhecimento local revelou-se particularmente importante.
“Conhecemos os caminhos, conhecemos as pessoas, conhecemos os pontos de água e conhecemos as fragilidades do território”, sublinha o autarca.
Ao longo da emergência, as necessidades foram mudando constantemente. Houve momentos de apoio às operações de combate, acompanhamento de pessoas mais vulneráveis, auxílio a proprietários e resposta a problemas relacionados com o abastecimento de água.
O presidente da Junta, que exerce funções em regime parcial, conciliou durante aqueles dias a atividade profissional com uma presença praticamente permanente no terreno. “Muitas vezes não havia horários. Fazia o meu trabalho profissional durante o dia e seguia diretamente para o terreno. Quando a freguesia precisa, não há relógio nem horário”, afirma.



Cerca de 25 quilómetros de tubagens já foram repostos
Uma das consequências menos visíveis dos incêndios foi a destruição e danificação de infraestruturas essenciais ao abastecimento de água. Numa freguesia onde várias localidades dependem de minas, furos e outros sistemas locais, garantir o funcionamento destas estruturas tornou-se uma das prioridades imediatamente após a passagem das chamas.
Foi necessário reparar avarias e substituir extensas redes de tubagens. Um mês depois, a Junta contabiliza já cerca de 25 quilómetros de tubos repostos.
São trabalhos que, segundo o autarca, podem passar despercebidos para quem observa a situação de fora, mas que são indispensáveis para assegurar condições básicas às populações.
O impacto do incêndio estendeu-se igualmente à atividade agrícola e pecuária. Houve animais perdidos, pessoas feridas, currais e estruturas agrícolas destruídos e proprietários que viram desaparecer, em poucas horas, investimentos e trabalho acumulados ao longo de vários anos.
No período que se seguiu ao incêndio, a Junta colaborou também na distribuição de pasto e milho aos criadores afetados, procurando garantir alimento para os animais das explorações atingidas.
“Pode parecer um pormenor para quem vive longe do mundo rural, mas para muitas famílias os animais representam trabalho, rendimento e património construído ao longo de anos”, salienta.
Entre as imagens que permanecem na memória estão as enormes frentes de fogo empurradas pelo vento e as projeções que faziam surgir novos focos a grandes distâncias. Mas são sobretudo as histórias individuais que o presidente da Junta diz não esquecer: famílias receosas de perder as suas casas, proprietários confrontados com a destruição das explorações e pessoas que perderam animais e estruturas essenciais à sua atividade.
Sobre os meios disponíveis para enfrentar uma ocorrência desta dimensão, o autarca evita críticas aos operacionais, destacando o trabalho desenvolvido por bombeiros, elementos da Proteção Civil e voluntários em condições particularmente difíceis. Reconhece, contudo, que a dimensão territorial da freguesia e a complexidade do terreno fizeram sentir, em determinados momentos, necessidades superiores aos recursos disponíveis.
“Quem está no terreno gostaria sempre de ter mais meios, mais máquinas, mais operacionais e mais capacidade de resposta”, admite.











Da emergência à recuperação das aldeias
Terminada a fase mais crítica, começou imediatamente outro desafio: devolver progressivamente a normalidade às localidades atingidas.
Ao mesmo tempo que continuavam a ser resolvidas consequências diretamente relacionadas com os incêndios, era necessário retomar trabalhos que tinham sido interrompidos, limpar espaços, recuperar equipamentos e preparar as aldeias para as festas religiosas que se aproximavam.
O esforço colocou uma pressão adicional sobre os recursos humanos da Junta e obrigou a estabelecer prioridades. Algumas intervenções consideradas menos urgentes acabaram, inevitavelmente, por sofrer atrasos.
O presidente da Junta pede compreensão à população, salientando que essa situação não representa falta de atenção aos problemas existentes.
“Com o número de funcionários que temos, não é possível estar em todas as frentes ao mesmo tempo. Primeiro garantimos a segurança das pessoas e a resposta à emergência. Depois recuperamos gradualmente tudo o resto”, explica.
Préstimo e Macieira de Alcoba, uma das freguesias de maior dimensão territorial do concelho de Águeda, foi particularmente atingida pela ocorrência. Para além da área florestal ardida, ficaram danos em caminhos, explorações agrícolas, redes de água e património natural, com consequências que continuarão a fazer-se sentir durante algum tempo.
Um mês depois, a recuperação prossegue e o autarca deixa sobretudo uma mensagem de agradecimento a todos os que participaram na resposta à emergência: bombeiros, forças de proteção civil, voluntários, associações e população.
“Préstimo e Macieira de Alcoba demonstraram uma enorme capacidade de resistência. Passámos por dias muito difíceis, mas a solidariedade entre vizinhos, a entreajuda e o espírito mostraram aquilo que esta freguesia realmente é.”
As cicatrizes deixadas pelo incêndio não desaparecerão num mês. Algumas serão visíveis durante anos. Para o presidente da Junta, porém, a resposta da comunidade deixou igualmente outra marca: a demonstração da capacidade de união de uma população perante uma das maiores emergências enfrentadas pela freguesia.
“Os incêndios deixaram marcas. Algumas vão demorar tempo a desaparecer. Mas também mostraram a força das nossas pessoas. E é com essa força que continuaremos a trabalhar para recuperar, reconstruir e preparar melhor o futuro.”






