A Biblioteca Municipal Manuel Alegre, em Águeda, acolheu no passado dia 11 de abril uma sessão de apresentação de livros promovida pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), num encontro que reuniu dezenas de participantes e que ficou marcado pela evocação da luta contra a ditadura e pela valorização das conquistas alcançadas com o 25 de Abril.
O momento teve como principal orador José Pedro Soares, ex-preso político e atual coordenador nacional da URAP, que abordou as obras “Elas estiveram nas prisões do fascismo” e “Cadeia de Caxias: a repressão fascista e a luta pela liberdade”. Na sua intervenção, traçou um retrato da dureza do regime, recordando os milhares de portugueses que foram presos, torturados e, em muitos casos, mortos pela repressão política, tanto no território continental como nas antigas colónias.
Num dos momentos mais marcantes da sessão, José Pedro Soares partilhou o seu testemunho pessoal enquanto preso político, relatando ter sido submetido a tortura durante mais de um mês, quando tinha apenas 21 anos. Sublinhou a resistência mantida durante esse período, destacando que nunca denunciou outros companheiros, apesar das condições extremas a que foi sujeito.
A iniciativa deu também destaque ao papel das mulheres na resistência antifascista, frequentemente menos visível na memória coletiva, mas igualmente marcado pela repressão. Foi recordado que várias mulheres naturais de Águeda estiveram entre as detidas pela polícia política do regime.
Durante a sessão, foi ainda feita uma reflexão sobre o percurso democrático do país após a Revolução de Abril. José Pedro Soares, que integrou a Assembleia Constituinte nas primeiras eleições livres, recordou os direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa, como o acesso à saúde, à educação, à habitação e à proteção social, sublinhando o seu papel estruturante na sociedade portuguesa.
O orador alertou, no entanto, para os desafios atuais, defendendo que muitos dos problemas sentidos pela população resultam do incumprimento desses direitos, apelando à necessidade de reforçar a sua aplicação efetiva. Destacou ainda a importância de manter viva a memória do 25 de Abril, sobretudo junto das gerações mais jovens, como forma de garantir a continuidade dos valores democráticos e da participação cívica.
A sessão integrou-se no trabalho contínuo da URAP de sensibilização para a história da resistência antifascista em Portugal, promovendo o debate público e a reflexão sobre o passado como instrumento essencial para compreender o presente e construir o futuro.
